Bico de pato

Esses vizinhos dão pena, brigam o dia inteiro, falou de si para si. O melhor é parar de fofoquinha e ir tomar logo um cafezinho. Um pombo passou rasteiro à janela. Ela não percebeu. Na televisão, o telejornal da manhã repetia a cada cinco segundos a pandemia de coronavírus, mas estava no mudo. Há décadas tinha adquirido esse hábito estranho, ligar a TV e deixar no mudo enquanto fazia outras coisas: borrifar aguinha nas sempre-vivas, tirar a poeira dos buraquinhos da tomada com um cotonete, passar veja no chão com um paninho empurrado, pra lá e pra cá, pelo pé esquerdo. Foi à cozinha, separou um filtro de papel, pôs a água na panela preferida - vermelha, e as bolinhas brancas - riscou o fósforo e acendeu o fogão. A irmã reclamava toda semana. Compra um fogão novo, Nair, esse seu ainda acende com fósforo! Ela gostava do movimento, riscar a ponta vermelha, sentir o atrito nos ouvidos, ver a chama breve se alastrar pelo círculo de fogo. Não sabia, era um gosto inconsciente. A água fervia enquanto ela lia distraída um post do facebook. Quem era essa tal de Mônica Oliveira? Tinha duzentos e sessenta e quatro amigos, a maioria não conhecia. Mas lia ávida os textos longos, que expressavam indignação, raiva ou o aniversário de alguém. A tal Mônica reclamava de não poder sair de casa. Onde está meu direito de ir e vir. Tá na CONSTITUIÇÃO!!! Ela concordava, sim, onde estava a democracia? Se ela quisesse sair pra tomar um gorozinho, tinha todo o direito. Mas não era dada a essas coisas, não bebia desde mil novecentos e noventa e três, tinha prometido ao paizinho, que deus o tenha. Preferia ficar em casa mesmo, fazendo suas coisinhas. A água ferveu, se comprazia com o som das bolhinhas agitadas, era como se lhe pedissem: estamos prontas, venha fazer o café. E ela obedecia. Enchia bem o filtro, gostava de café forte, despejava a água fumegando, delícia aquele cheiro, deixava a cozinha calma e gostosa. Ouviu um estampido. Foi correndo à janela, na certa eram os vizinhos. O mais novo, Luís, chorava. A mãe, dona Kátia, berrava contra o mais velho (ele nunca prestou, pensou sozinha Nair) imprecações que vinham do fundo da garganta. O que tinha acontecido? Afinou os ouvidos, se inclinou sobre o parapeito, enfeitado de flores e os temperinhos que ela amava cultivar, e escutou nitidamente: homem que bate na mãe vai direto pro inferno. Aquele Marcelo era mesmo um desalmado, agredir a própria mãe. Mas, é claro, o problema vinha da má educação, logo a culpa era dela. Uma pena que tivesse chegado àquele ponto, o barulho tinha soado forte e grave. Mas, é claro, no fundo, no fundo, foi merecido. Se ela tivesse sido mãe... ninguém sairia da linha. Comigo é no cabresto, onde já se viu, tanta liberdade? Foi buscar o café, e no caminho, viu a imagem do presidente da república. Aumentou o volume. Era aquilo! As pessoas precisavam trabalhar, como é que poderiam proibi-las de sair de casa? Pronto, decidiu-se: depois do cafezinho, lavar a louça e tomar um banho, iria sair. O dia estava lindo, caminharia até o Parque Guinle, deixaria a comidinha das aves sobre a grama, depois marcharia por onde quer que desejasse. Estava tão feliz que pensou, só por um momento, em molhar o bico numa cervejinha gelada. Mas era pecado. Tinha prometido ao pai.
