Estoy abajo

O dia dos namorados se aproxima, e eu não tenho um. Dia. Namorado. O tempo se tornou um bloco de horas: começa uma aula no zoom, vejo os quadradinhos falarem, das duas da tarde passa pras cinco, e eu não vi nada além de um retângulo. Minha terapeuta me disse que devo alongar o olhar. Mas a janela do quarto dá pra outra janela, fico em quadrados. Como ver mais longe? Rolo as mensagens do whatsapp até 2018.
Dentro de um círculo pequenininho, um rapaz de óculos escuros, sentado num banco de praça, me olha à distância de dois anos. E ao lado, fazendo-lhe companhia eternamente, a mensagem: estoy abajo. Nos encontramos numa sexta de novembro. Naquela noite, Fermín foi me buscar na minha casa argentina provisória, hábito dos cavalheiros portenhos. Atrasou quinze minutos, avisados por mensagem. Oito e quinze, chegou. Desci e o vi dobrando a esquina. Bebemos cerveja, pegamos chuva, tocamos Beatles, encontramos um louco, recuperamos La Gata, nunca mais trocamos mensagem. Ele ficou lá embaixo pra sempre, ou até hoje, estoy abajo.
Escrevendo este texto, um dedo deslizou por não sei que botão, a tela mudou, e vi uma fotografia do Gabriel, tirada neste quarto cinco meses atrás. Ele olha para a câmera, para mim, com um jeito sem graça de quem não sabe encarar um olho durante muito tempo. Temos afinidade com os quadrados; os círculos nos desconcertam. Naquela tarde brincávamos de não fazer parte do mundo, "seu quarto parece que tá em lugar nenhum". Depois passeamos por Copacabana, talvez tentando um encaixe com a vida comum, aquele brinquedinho infantil de colocar a estrela na estrela, o quadrado no quadrado, o triângulo no triângulo. Bebemos cerveja num quiosque, ele disse "te amo, te amo", deixei algumas lágrimas pela cara, mas sabia que as estrelas são luz, não se encaixam. Zoom, tirei a fotografia, flash, nunca mais nos vimos, até hoje, estoy abajo.
Desço para tomar ar. A lua no céu, alheia a tudo, quarto crescente. Alongo a vista, sinto saudades.
Marcar encontros com desconhecidos, esperá-los ou deixá-los esperando a vida toda. Olhar nos olhos deles e não ver futuro (os olhos não são bolas de cristal). E mesmo assim ter fé: na cerveja que eu bebo, no brinco que eu perco, no erro que eu assumo.
Rima infame: talvez eu ainda ame e, quem sabe, amarei sempre os meus pobres namorados, que me fazem esticar os olhos e ver além dos quadrados.
