Foi de viagem que me tornei poeta

11/09/2018
Arte: Liana Monteiro
Arte: Liana Monteiro

Foi de viagem que me tornei poeta.

Havia no Nordeste um rio Punaú. Havia na beira do rio um boi guardião. Estava deitado ao sol, todo branco, refletindo a luz, irmanado com a abundância e a escassez.

O rio às vezes era só um conjunto de poças que refletiam, aqui e acolá, o céu. Mas era também rio de se banhar e ser arrastado, na maré cheia. Ao longe, e nem pude ver, havia mar. Praia do Zumbi, talvez. Não vi o mar, e essa lembrança causa buracos.

O boi era calmaria e, de repente, violentava os seres que ousavam atravessar a margem. O rio tinha um guardião. Mas o que era aquele ruminante parado, à beira do sol, para quem pensava em atravessar a margem?

Soube depois.

Foi preciso retornar, pegar o avião de volta para um dia cinza no Rio de Janeiro, pousar no Tom Jobim, passarim, chegar em casa, recomeçar as aulas, entender que a passagem para os quinze anos tinha sido realizada em outra ponta do Brasil, descobrir um caderno pouco usado com a imagem de Chaplin e um cachorro.

A lembrança era forte demais. Aquele boi, aquele rio, aquele ar parado de um instante que deseja fixar-se. E havia ainda a estrada de terra vermelha, os coqueiros e as palmeiras de Maracajaú, Fernando pintor, que havia morado no Estácio, a chuva de tarde, a borda da pizza, as falésias de mercúrio, a insolação, o maior cajueiro do mundo, as outras praias, os outros rios, os cafés-da-manhã, o bolinho de aniversário...

Tanto, para caber dentro de uma pessoa só.

Arrisquei três versinhos no caderno do Carlitos. Era um quase haicai sem saber. A natureza mínima, para acalmar a abundância do boi e a vontade de ser todas as coisas.

Da primeira viagem, fez-se a consciência das viagens da vida: o ir e voltar da escola, visitar minhas tias, ir à praia no domingo bem cedinho, caminhar até a ponta do Aterro e retornar para casa ouvindo música.

Soube que a poesia nasce depois da volta.

Depois das caminhadas.

Depois dos mergulhos.

Depois de amar alguém e ficar só.

Sei que algo ainda não cabe aqui, mesmo depois de tantos anos. Por isso escrevo, escrevo, escrevo. Talvez um dia, quem sabe, dê conta e cabo de mim.

Share
2026 | Liana Salles Monteiro | Todos os direitos reservados.
Desenvolvido por Webnode
Crie seu site grátis!