Foi de viagem que me tornei poeta

Foi de viagem que me tornei poeta.
Havia no Nordeste um rio Punaú. Havia na beira do rio um boi guardião. Estava deitado ao sol, todo branco, refletindo a luz, irmanado com a abundância e a escassez.
O rio às vezes era só um conjunto de poças que refletiam, aqui e acolá, o céu. Mas era também rio de se banhar e ser arrastado, na maré cheia. Ao longe, e nem pude ver, havia mar. Praia do Zumbi, talvez. Não vi o mar, e essa lembrança causa buracos.
O boi era calmaria e, de repente, violentava os seres que ousavam atravessar a margem. O rio tinha um guardião. Mas o que era aquele ruminante parado, à beira do sol, para quem pensava em atravessar a margem?
Soube depois.
Foi preciso retornar, pegar o avião de volta para um dia cinza no Rio de Janeiro, pousar no Tom Jobim, passarim, chegar em casa, recomeçar as aulas, entender que a passagem para os quinze anos tinha sido realizada em outra ponta do Brasil, descobrir um caderno pouco usado com a imagem de Chaplin e um cachorro.
A lembrança era forte demais. Aquele boi, aquele rio, aquele ar parado de um instante que deseja fixar-se. E havia ainda a estrada de terra vermelha, os coqueiros e as palmeiras de Maracajaú, Fernando pintor, que havia morado no Estácio, a chuva de tarde, a borda da pizza, as falésias de mercúrio, a insolação, o maior cajueiro do mundo, as outras praias, os outros rios, os cafés-da-manhã, o bolinho de aniversário...
Tanto, para caber dentro de uma pessoa só.
Arrisquei três versinhos no caderno do Carlitos. Era um quase haicai sem saber. A natureza mínima, para acalmar a abundância do boi e a vontade de ser todas as coisas.
Da primeira viagem, fez-se a consciência das viagens da vida: o ir e voltar da escola, visitar minhas tias, ir à praia no domingo bem cedinho, caminhar até a ponta do Aterro e retornar para casa ouvindo música.
Soube que a poesia nasce depois da volta.
Depois das caminhadas.
Depois dos mergulhos.
Depois de amar alguém e ficar só.
Sei que algo ainda não cabe aqui, mesmo depois de tantos anos. Por isso escrevo, escrevo, escrevo. Talvez um dia, quem sabe, dê conta e cabo de mim.
